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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Buscando melhores dias para a Cidade Maravilhosa*

Durante o segundo mandato de Lula/PT, o Brasil foi “premiado” com o direito de sediar a Copa do Mundo de 2014, assim como “contemplado” pela vitória da cidade do Rio de Janeiro como sede de mais um grande evento: os Jogos Olímpicos de 2016. Percebemos a vinda desses eventos como recompensa ao governo tupiniquim, que tem garantido sua fidelidade aos organismos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.

Tal constatação fica ainda mais perceptível ao acompanharmos as diversas ações e reformas de cunho neoliberal realizadas ao longo dos oito anos de Lula à frente da Presidência da República, além de ações imperialistas como o envio de tropas do Exército brasileiro para reprimir a classe trabalhadora haitiana em nome de ‘missões humanitárias’ da Organização das Nações Unidas.

Lembro como se fosse hoje das notícias estampadas nos jornais de grande circulação: “Bandidagem derruba helicóptero da PM, após confronto nos Macacos”. Lembro também que esse confronto foi alguns dias depois da ‘Cidade Maravilhosa’ ganhar o direito de sediar em seu solo os Jogos Olímpicos daqui a seis anos. Depois desse triste acontecimento, o governador Sérgio Cabral/PMDB – fundamental aliado de Lula/PT – inicia nas comunidades populares, favelas e periferias a sua política de segurança, liderada pelas famigeradas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). As UPPs surgem sob o discurso de “pacificação” das favelas do Rio de Janeiro. Causa-me indagações e estranhezas o fato de que tais iniciativas são realizadas em áreas próximas aos estádios ou demais localidades onde ocorrerão os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo, já que não acompanhamos o mesmo processo ocorrer em cidades como São Gonçalo, Niterói, Caxias... Outro questionamento importante refere-se a buscarmos o porquê do Estado, em vez de UPPs, não investir na implementação de mais escolas, saneamento básico, cultura etc., nessas localidades historicamente marginalizadas.

Todavia, entendemos que o Estado brasileiro NÃO vai fazer isso, pois as bases da sua política econômica não possibilitam investimentos reais nas áreas sociais. Por isso, para conter MILHARES de trabalhadores que ganham R$500, deixando-os quietos, são necessárias as violências policial e também dos traficantes – que só existem com incentivo do próprio Estado (que não realiza o efetivo combate ao tráfico de armas, drogas...) – já que é interessante a existência de várias facções criminosas para impossibilitar a união de todas as favelas.

Não podemos ser ingênuos ao ponto de não prever os acontecimentos que estão ocorrendo no Rio. Estava na cara que as UPPs trariam para a população ainda mais violência, insegurança e medo em vez de paz, tranqüilidade e liberdade. Essa caracterização é conseqüência da política dos Governos, que não são direcionadas para exterminar a pobreza, mas sim aterrorizar a população sofredora que precisa sobreviver em condições desumanas.

A pobreza, na minha concepção, só será exterminada quando trocarmos de modelo de sociedade. É preciso defender um modelo que garanta o investimento nas áreas sociais (Educação, Saúde, Cultura...), e isso só ocorrerá em uma sociedade socialista. Para lutarmos e conquistarmos melhorias, precisamos enquanto trabalhadores nos organizarmos em sindicatos, enquanto estudantes em Centros Acadêmicos, enquanto moradores em associações etc. E, juntos, independentes e contrários aos governantes e aos capitalistas, podemos combater o fascismo de Lula, Cabral e Paes, vislumbrando que o morro desça ao asfalto para trazer a liberdade e a felicidade para a população brasileira e insegurança apenas para os poderosos capitalistas.


*Thiago Coqueiro Mendonça "Lenny"

Militante do Movimento Quem Vem Com Tudo Não Cansa - UFRJ

sexta-feira, 3 de julho de 2009

De trajetos escolares a tabuadas*

*Gabriel Rodrigues Daumas Marques


O segundo semestre de dois mil e nove trouxe lágrimas e luto em seu primeiro dia. Vermelha ou laranja, a linha se dividiu: de um lado, mochilas, merendeiras, cadernos, materiais escolares; do outro, um carro capotado, com crianças e jovens mortos ou feridos. Mesmo com os olhos fechados para não acreditar na trágica cena, catracas, roletas, retrovisores surgem nas imagens e mais uma jovem tem sua vida perdida, sob as rodas de um ônibus.


O supersensacionalismo midiático e a culpabilização de indivíduos nos impedem de um olhar crítico e uma análise criteriosa dessas circunstâncias. Buscando transcender esse quadro, algumas questões valem ser problematizadas. A lógica de funcionamento da sociedade se estabelece por meio de exploração do trabalho alheio e também não permite à totalidade da humanidade o acesso aos bens sociais produzidos.


Enquanto é imposta a escassez de uma Educação Pública, Gratuita e de Qualidade, pais e familiares redobram seus esforços para garantir seus filhos e filhas em instituições de qualidade, mesmo a quilômetros de distância de seus lares. Esses mesmos pais precisam trabalhar durante longas jornadas por dia e não têm tempo para levar e buscá-los na escola. Podem encaminhá-los para o transporte público ou contratar serviços privados de transporte escolar.


Na primeira opção, talvez uma condução não baste, o tempo de espera se prolongue e o receio de exposição à violência urbana se torne cada vez mais evidente e necessário. Ademais, motoristas são cada vez mais superexplorados: não bastassem exaustivas e estressantes horas no caótico trânsito carioca, precisam atualmente dirigir e contabilizar pagamentos e trocos enquanto seus patrões aumentam sua lucratividade ao pagar apenas um salário para duas distintas ocupações.


Na segunda opção, precisam confiar no que há de mais próximo. Mais atacada pela mídia por conta da ilegalidade do transporte clandestino, o esvaziamento das manchetes é proposital e não nos leva para além do que enxergamos. Pode ser um desses motoristas algum trocador demitido por conta da paulatina extinção desse emprego e que optou (será que realmente podemos optar?) por buscar uma forma de sobrevivência? Quanto custa a legalização? Quem são os grupos do setor de transporte envolvidos nas licenças para liberar tal funcionamento? Esses mesmos pais que trabalham diariamente para sustentar suas famílias teriam condições de pagar ainda mais caro por um transporte legalizado? Os impostos, taxas e tarifas são direcionados para manutenção, sinalização ou melhorias de nossas ruas e estradas cada vez mais esburacadas e privatizadas?


Na Barra ou na Linha Vermelha, tragédias não surgem do nada, mas são impulsionadas pelas péssimas condições materiais de vida em nossa sociedade, onde seres humanos são explorados, coisificados e se transformam em estatísticas ou campanhas que jamais se aproximam da complexidade de nossos problemas reais.


O investimento em Educação propiciaria colégios com infra-estrutura, materiais didáticos e profissionais da Educação valorizados em cada município, em cada bairro, possibilitando que crianças e jovens se deslocassem caminhando ou pedalando. A estatização dos transportes coletivos acabaria com a farra de mafiosos empresários, melhoraria o planejamento urbano e diminuiria o próprio (insano) trânsito. Mas tais propostas sempre ficarão no futuro do pretérito enquanto o sustentáculo concentrador de riquezas permanecer vigorando.


Deixo aqui algumas reflexões in memorian de Luana da Silva Macedo, Rayanne da Silva Souza, Esther Reis Fernandes da Rocha, André Lucas Couto Telles e Vinícius Lopes da Silva. Esses quatro últimos tiveram abruptamente retirada a oportunidade de cantar sua última Tabuada! Com o coração e os olhos lacrimejando, envio os votos de solidariedade e força a amigos e familiares dessas jovens vítimas a quem devemos singelas homenagens.


Entristecido, as próximas contas e o orgulho de ex-aluno do Colégio Pedro II permanecerão abalados durante bastante tempo, mas continua acesa a chama e viva a luta, para que cada criança possa se referenciar numa Tabuada, contemplando-a com entusiasmo pelo pertencimento à escola, onde seus conhecimentos possam ser construídos com qualidade e destinados à humanidade. Pedro II, tudo ou nada? Alunos e ex-alunos optam por Tudo. E nós, que opção construiremos para o futuro da sociedade?


*Professor de Educação Física da rede estadual de ensino, Mestrando em Educação (UFRJ) e militante do Coletivo Marxista

sábado, 30 de maio de 2009

Números...*


Comemorar os vinte e quatro anos de idade sempre passa pelas criativas piadas por conta da associação ao Jogo do Bicho. Vinte e quatro horas: o tempo para a Terra girar em torno de si mesma, que a cada dia parece ser mais exíguo para o cumprimento de nossas tarefas. Num estado de coisas que nos pressiona e nos exige constantemente, explorados e oprimidos não conseguem nem poderiam atingir as façanhas e proezas de um Jack Bauer dentro de mil quatrocentos e quarenta minutos. Números e mais números definem medidas, prazos, datas, salários e lucros, sobrepondo-se aos nossos desejos, às nossas reais demandas e necessidades.

“Os números mostram, dizem, informam, confirmam...”, esbravejam pelos cantos. Mas também são manipuláveis e escorregadios. Alguém os controla? Os decide? Os apropria? O curso corriqueiro de nossos dias mesquinhos e abençoados nos impede de perceber as ordens ditadas e as causas de óbvias conseqüências cada vez mais drásticas para o conjunto da humanidade. São absurdos extras e expressos por todo o globo que podemos ler em meia hora de um dia em um simples jornal do Brasil. E de tão absurdas tais conseqüências, a ira e a raiva aparecem para nos conformar ou rezar e torcer para que não aconteça algo conosco ou com alguém próximo. Nossos olhos e ouvidos não enxergam muito menos ouvem sobre as causas de tantas mortes, de tantas guerras, de tanta violência, de tanta miséria e caem num sono de pesadelos, preocupações e preparo para mais alguns números de horas e minutos de uma rotina que nos aliena e nos coisifica, logo após uma célere saudação de boa noite ou uma aventura fantasiosa por um caminho das índias.

Milhares, milhões, bilhões, trilhões fazem parte de contas bancárias e lucros exorbitantes de poucos. Enquanto tudo isso é escamoteado por recordes, cestas e gols que balançam redes na busca por títulos cujas taças, troféus, prêmios e glórias serão hegemonizados por ínfimos nomes, aterrissemos na realidade concreta: percentual de desempregados cada vez maior garante a necessária reserva de mercado para baixar o valor da força de trabalho do homem enquanto mercadoria; filas quilométricas de homens, mulheres, jovens e até mesmo crianças na busca por um emprego que garanta com dignidade uma sobrevivência às suas famílias; nas ruas, praças e portas de milionários bancos, seres humanos contabilizam horas e dias sem uma refeição ou um mero copo d’água tratada; idosos que poderiam usufruir de sua aposentadoria, repousar e cuidar dos filhos e netos varrem e limpam chãos onde pisaremos para comprar nossos fast food; crianças e jovens em lavouras, no tráfico ou na prostituição em busca de algumas moedas que possam trocar por comida.

Os Engenheiros já perguntaram “o que fazer com esses números”. Interpretá-los, lê-los, conhecê-los? Não basta! Ficarmos chateados, melancólicos, inconformados? É pouco! Urge que forneçamos novas formas a essa engrenagem que se pauta pela exploração, opressão, concorrência e lutas cuja lógica de funcionamento é essencialmente desigual e cruel. Não queiramos apenas questionar quanto valem as nossas vidas, mas busquemos ampliar esse leque e lutar para mudá-las, consolidando sonhos e construindo um projeto onde os números estejam sob nossa tutela, contemplando as necessidades e possibilitando o livre desenvolvimento de cada um dos membros e da sociedade como um todo.

Que presentes, comemorações, felicitações, abraços e beijos não dependam de datas ou números frutos do modelo do consumo capitalista, mas sejam conseqüências de uma nova ordem social, onde deveres e direitos sejam igualmente divididos. “Feliz Aniversário” só poderemos significativamente comemorar quando ao nosso redor não mais houver fome, miséria, desigualdade e exploração.


*Gabriel Rodrigues Daumas Marques
Professor de Educação Física, Mestrando em Educação (UFRJ) e militante do Coletivo Marxista
30/05/2009

sábado, 9 de maio de 2009

Quando só o radical caminha*

*Texto de apoio à chapa QUEM VEM COM TUDO NÃO CANSA
durante as eleições para o DCE Mario Prata
Professor Ricardo Kubrusly
Entre os vários tempos que a vida nos revela, todos são sempre de lutas, o que muda, o que os diferencia, é a esperança de mudanças que essas nossas lutas permanentes vislumbram. A velocidade com que caminhamos em direção a um mundo justo e coletivo, que às vezes pode até ser negativa, essa sim varia, dependendo dos tempos e da força de verdade que trazemos conosco.

Dois tempos, no entanto, se destacam em meio ao emaranhado das várias possibilidades de luta. O primeiro é quando tudo, dominado pela simulação, suas farsas e imitações de realidades, já nos parece estabelecido, feito de um futuro inexorável, imutável, inerte. O segundo é ditado pelo calor das lutas e das idéias em chamas que nos sufoca e delibera. Entre esses dois extremos o do imobilismo e o da revolta, entre a calma e o movimento, milhões de cenários intermediários sugerem, e as vezes permitem, diferentes estratégias que, umas mais outras menos, contribuem na busca, no desvelamento e na construção desse mundo possível e melhor.

O que acabamos por perceber, por meio das várias histórias que escrevemos, é que a maioria dos tempos vividos, quase sempre, são combinações dos dois tempos extremos, o da calma e o do movimento, que se alternam mas não se misturam, nos deixando mais entre as batalhas e as desilusões, estas causadas pelos momentos de inércia, do que em um emaranhado de possibilidades e nuanças sociais no qual várias estratégias se apresentariam como possíveis.

As histórias que escrevemos, quando lidas, também nos ensinam o que existe de semelhante entre esses dois tempos de extremos; é que tanto no conflito deflagrado quanto na depressão alienada, só o radical caminha. É da força gerada por convicções e sonhos que se constrói uma caminhada radical. Há que querer mudar mais do que apenas dizer querer mudar. É quando se percebe que conciliações e conchavos com o poder estabelecido, (como os que são hoje compactuados em todas as esferas decisórias deste planeta envergonhado, pelos dirigentes de nossas instituições e pseudo-movimentos), não gera mudanças, mas sim, perpetua, agiganta e cristaliza esse mesmo poder; é quando se percebe que o novo ainda é o mesmo velho de sempre, que nossas convicções e sonhos se estabelecem e se fortalecem.

Hoje na UFRJ, e fora dela, vivemos épocas de descrenças nas instituições, no poder revolucionário das políticas e mesmo na nossa capacidade de levar a cabo mudanças sociais verdadeiras. Parece que o mundo já esta dado e que as terríveis injustiças dentro e fora dos nossos campi são imutáveis, que resta pouco, ao jovem, ao estudante, além de estudar somente, estudar calado, invisível, se conformando quieto, imóvel perante esse mundo que nos cerca injusto e previamente concebido. Sorte, dizemos sem pensar, dos que nos dominam e azar o nosso e do nosso mundo desacreditado.

Mais do que simplesmente participar das eleições estudantis que se aproximam, é hora e é preciso caminhar para uma escolha e uma participação radical. A Chapa 4 “Quem Vem Com Tudo Não Cansa”, entre as que ora se apresentam para o pleito é a única que traz nos seus estudos históricos e ações permanentes o espírito radical que necessitamos nesse momento apático. É nossa opção por mudanças verdadeiras e não podemos nos perder de nossa hora.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Relato de um caso

Ricardo Kubrusly (1)
Vera Maria Martins Salim (2)
José Antônio Martins Simões (3)


Há histórias que nunca são contadas, há as que uma vez se pronunciam e há as que, como esta, ficamos a recontá-la, como se nunca a compreendêssemos.

Quando nascemos já somos nós mas ainda somos parte de nossas mães. Formamos, nesse início de vida, quase que um só corpo, ou melhor, uma só pessoa. O cordão físico que nos unia, cortado ao nascermos para o mundo, ainda persiste através das distâncias físicas que nos separam e, na sua invisibilidade operante, se faz presente: por um lado, pela tensão permanente entre o desejo de futuro e a segurança de um passado semi-esquecido, semi-lembrado. É dessa tensão que surgem os movimentos que nos possibilitam como seres independentes e, ao mesmo tempo, coletivamente organizados. Por outro lado, também percebemos os efeitos contraditórios do cordão perdido, pela aliança entre nossa dependência enquanto ser inaugurado e a responsabilidade de nossas mães, frente a nossa fragilidade.

O rompimento dos vínculos estabelecidos pelo cordão original e suas conseqüências iniciam-se com o primeiro Não. Esse grito de liberdade e independência, dirigido desesperadamente à mãe, quase sempre à beira do comedor, entre a penúltima e a última colherada da papinha, é a primeira manifestação pública de nossa individualidade. Com a vida, nos esquecemos dos acontecimentos, mas nunca de suas conseqüências. A mãe, apavorada na busca inerte de preservar a estrutura simbiótica que simultaneamente lhe cobra e recompensa, ouve, contrariamente, ao invés do Não enraivecido, um Mãe entusiasmado... E emocionada, grita, ela mesma, para quem puder ouvir: Ele disse Mãe, que lindo!... E sai contente e feliz, acalantada pelo suposto reconhecimento, que se de fato houvera, certamente não se manifestara pelo Não.

Essa dinâmica paradoxal da relação mãe bebê, que ao mesmo tempo liberta e aprisiona, repete-se, vida afora, pelos anos de escola, onde, gritando seus nãos, construímos nossas identidades específicas, empurrados e puxados pela escola que nos quer ao mesmo tempo dependente e independente.
A grandeza das escolas, assim como das mães, está em reconhecer os nãos como nãos que deveras são e não como mães mal pronunciadas. As boas escolas, como as boas mães, são sempre capazes de se felicitarem com os caminhos diferentes e, muitas vezes, surpreendentes, que filhos e alunos se propõem a trilhar. Afinal, o pouco que sabemos dos caminhos que inventamos é que as paisagens se revelam novas quando o caminho é construído pelo caminhar. São as diferenças que experimentamos em nossa vida que justificam nossa caminhada.

Escolas e mães, às vezes, muito se parecem e nos vícios se copiam. Passam a supor serem filhos ou alunos a todos que se inserem nos seus cotidianos e muitas vezes acostumam-se à perversão pedagógica de confundirem os nãos que as repelem em apelos por uma mãe que já não mais existe.

Jovens professores ao ingressarem em uma escola são incorporados à casa, muitas vezes, primeiramente numa posição intermediária entre o aluno e o professor. A escola o olha como ainda precisando de cuidados posto que ainda jovem, afeiçoa-se fisicamente mais aos alunos do que aos professores. Seus diretores mais experientes, mais velhos, muitas vezes acomodados a seus cargos e salários, exercendo uma lógica envelhecida e duvidosa, em nome dos cuidados que julgam necessários ao jovem professor que se inicia, impõem-lhe restrições e monitoram suas atitudes e pensamentos. Durante um período, o probatório, o professor deve demonstrar conhecimento dos conteúdos das disciplinas que pretende ministrar e uma conduta pedagógica compatível com a escola que o testa. Isto é claro, mas infelizmente, em muitos casos, os zelosos guardiães que as dirigem, exigem obediência ideológica e política. Se esquecem que uma educação deve ser construída pelo respeito às diferenças de idéias em todos os níveis e, saudosos das épocas ditatoriais onde a intolerância preservava poderes estabelecidos, destroem carreiras e aniquilam futuros daqueles que, corajosamente, ousam pensar as instâncias da vida de maneira diversa da que se nos é imposta, cotidianamente, pelas instâncias da mídia.

Nós, professores de uma universidade pública já nos acostumamos, infelizmente, com pequenas perseguições. Elas fazem parte do cenário de nossa luta por um mundo mais solidário, mas, felizmente, ainda nos indignamos com sentenças como as que o Colégio de Aplicação da UFRJ (CAp/UFRJ) recentemente aplicou ao jovem professor Gabriel Marques. Vejamos os fatos:


O Professor Gabriel foi chamado a atenção por seus superiores hierárquicos dentro do CAp/UFRJ, numa reunião do setor curricular de Educação Física, convocada sem pauta e sem a presença dos demais professores substitutos, após o aparecimento na lista de discussões Universidade Pública de uma mensagem assinada, de sua autoria, relatando o ato no CONSUNI da UFRJ do dia 28 de agosto contra o plano diretor. O Professor Gabriel saiu constrangido desse encontro e nos procurou, como amigos e companheiros de militância. Fizemos uma reunião e decidimos que o caminho a seguir era procurar o jurídico da ADUFRJ. A advogada de plantão ponderou que não se podiam ainda caracterizar abuso de poder ou constrangimento moral as ameaças veladas que sofrera na citada reunião. Encaminhou-o, então, para diretoria da ADUFRJ, que comprometeu-se a realizar a interlocução com a Direção do CAp. Infelizmente, até o momento, a entidade representativa do corpo docente, não realizou a interlocução e não possui posição acerca do caso. Tentamos, então, diversas vezes marcar uma reunião com a diretoria do CAp/UFRJ, primeiramente o Professor Gabriel e depois nós, supostamente mais experientes e menos envolvidos com os acontecimentos. Não conseguimos nos reunir com a direção do CAp/UFRJ nem o Professor Gabriel com a diretoria da ADUFRJ, que forneceria suporte político durante o diálogo com a direção do CAp. Finalmente, a renovação por mais um ano do Professor Gabriel lhe foi negada, sendo esta informação oficialmente repassada no dia 4 de novembro, 35 dias após o Conselho Pedagógico Extraordinário da Unidade, que deliberou os pedidos de substitutos para o ano letivo de 2009.

Ressalte-se que o Professor Gabriel goza de respeito e admiração por parte de professores, alunos e pais de alunos do CAp/UFRJ. Seu desempenho como professor é excelente, tendo sido em diversas oportunidades reconhecido por seus alunos e pais de alunos como um bom professor. Ressalte-se também que é costume no CAp/UFRJ a renovação pelo segundo ano de seus professores substitutos e que todos os outros professores nessa condição tiveram seus contratos renovados, a não ser os que optaram por não permanecer na Unidade.



Diante dos acontecimentos, sempre diante dos acontecimentos, é que podemos diferenciar discursos coerentes de ações coerentes. Acostumamo-nos ao discurso muitas vezes coerente de nossos dirigentes, nas nossas escolas públicas, nas nossas universidades públicas. Algumas vezes partilhamos das mesmas idéias, outras não. Suportamos e creditamos à dificuldade de fusão entre teoria e prática que como cientistas conhecemos bem, as pequenas humilhações de ordem ideológica que vez por outra acontecem em nossos campi, mas um acontecimento de perseguição explícita como este acima descrito, merece uma reflexão de todos os alunos, professores e técnico-administrativos que compõem a UFRJ e, certamente, de todos os cidadãos do mundo que o querem melhor. Precisamos refletir e precisamos agir, imediatamente, para reconduzir o Professor Gabriel ao seu lugar de direito junto ao CAp/UFRJ e para que incidentes de macartismos revoltantes como este não voltem a acontecer entre nós.

1 Ricardo S. Kubrusly é Professor Associado2 do IM/UFRJ e do HCTE/UFRJ
2 Vera Maria Martins Salim é Professor Adjunto 4 do PEQ/COPPE
3 José Antônio Martins Simões é Professor Associado2 do IF/UFRJ

sábado, 4 de outubro de 2008

Número Errado*

Domingo. Manhã cinza. A porta do estábulo aberta. O pátio da prisão era a cidade triste. Dos Leblons aos Bonsucessos, por todo país, vestidos de vergonha e medo votamos. O que poderia ser a festa, o que deveria ser a festa da escolha, era a agonia do mesmo. A dificuldade entre as nuanças de cinza tornava o processo demorado. Digitando 16 números consecutivos, corretos, escolheríamos os códigos dos pixels que coloririam os próximos anos cinzas. E os cinzas escolhidos ririam, ririam, mas nós, apenas cobríamos, responsável e obedientemente, o caminho, do estábulo ao pátio de digitação, ida e volta.

Se votássemos certo, apareceria uma fotografia. Colorida? Era uma pequena alegria, uma recompensa, em meio ao cinza entristecido da tarefa determinada. Uma coisa era certa: negar os cinzas era escolher um número errado. Errar os cinzas e tentar alguma cor era inadmissível. A pessoa era imediatamente admoestada pelas máquinas controladoras do desejo e por pessoas que, desavisadas ou não, poderiam por casualidade ou destino se encontrar por perto.

Se insistíssemos e confirmássemos o erro, enormes orelhas cresceriam imediatamente na lateral de nossas faces, dando início às verdadeiras transformações. Com elas, íamos sumindo, desaparecendo até nos tornarmos uma nuvem de erros que se perderia em meio à poluição... nos incorporaríamos ao cinza e, depois de algum tempo, ninguém, nem mesmo os pobres digitadores de equívocos invisíveis, a que nos tínhamos transformado, perceberiam os erros. As cores do mundo nos eram negadas, mas podíamos ver, quando acertássemos os números, por um relance, as fotografias dos risonhos candidatos.

Número errado! Repetia a máquina de escolhas. Vote certo! Digite um número correto. Você pode fazer a sua escolha, gritava a máquina, eloqüente, de destinos. Seja um cidadão, escolha um número certo, vote cinza e volte ao estábulo de onde, agora na segurança da égide do estado, poderemos todos, sim, poderemos todos, por mais alguns anos, apreciar o trabalho dos sorridentes acinzentadores da realidade.

Número errado! Do azul ao Vermelho sonho. Amarelos, verdes de marrons, violetas, laranjas pêssegos e abóboras fúcsias. Número errado nas cores de rosas jambos e abacates celestes.

A todas as cores, não. Números errados, impossibilitados pela prática democrática dos próximos destinos. Como nuvens hidrófobas éramos as cinzas cinzas e já nos acostumávamos a essa condição de invisibilidade. Figura e fundo. Fundo e fundo. Éramos cinzas.

Agora, quando hoje já não demora amanhã, a impressão que fica é que havia, entre os cinzas, alguns ainda mais cinzas, mais invisivelmente cinzas, os sorridentes, e que os resultados foram ainda piores do que se esperava. Mas é só impressão. Impressão desesperada. Esperávamos o que? Se todo número que em pixels transformado não for apenas qualquer nuança de cinza é um numero errado.
*Professor Ricardo Kubrusly
Texto publicado no Jornal da AdUFRJ após as eleições de 2006, durante a gestão em que o autor pertencia à Diretoria da entidade.

Os Nomes do Mesmo*

Em um mundo determinista, onde causas e efeitos se comportam clássica e tradicionalmente, com cada causa determinando seus respectivos efeitos e com todo e qualquer acontecimento tendo sido gerado por uma ou algumas causas, não sobra muito lugar para livre arbítrio e liberdade e liberdades passam a ocupar apenas um lugar ficcional no mundo inexistente do que poderia ter sido. Em um mundo determinista e complexo, onde o bater de asas de uma borboleta pode gerar, e portanto ser a causa de, estranhos acontecimentos, tudo o que parece fruto de alguma liberdade de escolha e/ou decisão já está, e sempre esteve, milimétrica e atomicamente pré-definido e certamente teve sua origem em algum primeiro motor ou big-bang ou mesmo, no sopro de um certo deus desengonçado e flaneur que no dia D, na hora H no minuto M e no segundo S teria dito: Danem-se todos, e fez-se o verbo e os substantivos e já não tínhamos escolha do que agora somos.

Claro que as ciências modernas com seus quanta e suas verdades essencialmente numéricas, podem rever essa idéia clássica e propor um cenário alucinadamente estocástico ou mesmo sensatamente possibilitante, com evoluções clássicas globais e localmente estatístico, onde variações do determinismo podem ser apreciadas e onde substituímos as engrenagens de Newton pelos dados viciados dos cientistas modernos... E tendo de escolher entre engrenagens e dados, ficaríamos mesmo com a literatura. Neste caso, ou melhor, nesse tipo de descrição de tudo, também não possuímos o famigerado livre arbítrio e nos vemos mais uma vez, escravos dos acontecimentos. Nada a fazer, senão surfar as ondas que nos mandam os ventos.

Nesses tempos modernos, o conceito de liberdade torna-se um jogo de ilusões onde se supõe que por entre uma gama de escolhas possíveis agiremos determinando futuros por meio de nossas atitudes, quando na verdade, inventamos diversos nomes para o mesmo, que será sempre o inexorável de nossas vicissitudes. Copo ou canudo, débito ou crédito, fumantes ou não fumantes, diet ou light, açúcar ou adoçante, o fantoche da direita ou o da esquerda, que escolhas são essas? Republicanos ou democratas, árabes ou judeus, Lula, Alquimim ou Heloisa, que opções de fato temos quando os nomes mudam e as mesmas substâncias continuam?

Ligo o rádio e nos reclames eleitorais a novidade é a velha e batida escolha do menos ruim. Merda por merda vote em mim. Nas telas o mesmo, nas ruas igual: Governo e oposição unidos pela preservação da democracia. O nome apenas, a marca da fantasia, a crença moderna. É da ilusão de liberdade que se alimenta a corrupção democrática. Mas é preciso votar, pense e vote, clamam pelos 7 cantos.

A democracia depende da escolha, entre os vários tipos de mesmos, que fizermos. Não anule seu voto, dizem, e lembram que de nada adiantará, pois os vencedores vencidos tomarão posse a qualquer custo e derrotarão, mais uma vez, e mais uma vez em nome da democracia, o povo. Não adiantará nada, é melhor cooperar, dizem hoje, como diziam durante o regime militar. Democracia, apenas um nome que deram ao continuísmo golpista que governa nossos países latino-americanos há décadas.

A democracia que mata crianças, aqui e no Líbano, que destrói continuamente o Iraque e aniquila os países da África, que secou suas mulheres com o leite em pó, em pó e democrático, posto que tudo o que é imposto pelas democracias que dominam desumanamente o mundo, torna-se necessariamente democrático, a democracia imposta pelo capital e que mata crianças repito, é essa a coisa escrotomorfa que devemos defender com os nossos votos. Vote em qualquer um dizem, do Chupacabra ao Belzebu, e afinal, ponderam, há bons candidatos e se e quando o povo souber escolher, continua e reformisticamente atingiremos o patamar civilizado onde as grandes potências se esbaldam e junto com elas, sambando, ainda teremos tempo de assistir aos escombros de nossas desesperanças.

Mas, não haveria um perdão para o tempo? Um modelo de mundo onde as verdades chamar-se-iam possibilidades e as vontades do um e do múltiplo comandassem os acontecimentos. Um modelo sem Deus mas com mistério, onde os determinismos determinassem apenas os determináveis e que, no jogo da vida o grito da sociedade construísse o livre arbítrio do povo e onde, os mortos que me perdoem, uma sociedade justa e socialista pudesse enfim ser demonstrada pela ação popular e não pela co-ação democrática que hoje nos domina.

Não haverá, em algum tempo perdoado, um universo paralelo, um outro ou o mesmo, onde a justiça social impere pelo exercício das liberdades, e não seria aqui, em um amanhã possível, e não teríamos começado por notar a farsa de uma democracia imposta pelas armas e pelo capital, e não teríamos começado aqui e agora, alardeando pelo planeta que aqui queremos liberdade com socialismo e votamos nulo porque não mais queremos os mesmos. E quanto mais, os mesmos disserem que não adianta, mais adiantará.
*Professor Ricardo Kubrusly (IM-UFRJ)
Texto publicado no Jornal da AdUFRJ às vésperas das eleições 2006

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Sobre o XXVIII Encontro Nacional dos/das Estudantes de Pedagogia (ENEPe) na UFES

Entre os dias 19 e 25 de Julho deste ano de 2008, a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em Vitória, sediou o XXVIII Encontro Nacional dos/das Estudantes de Pedagogia (ENEPe). A instituição dispôs o Centro de Educação Física (ginásio de esporte e salões) para o alojamento interno, e um acampamento de juventude para o alojamento externo dos participantes.

Com o tema “O Papel do/a Educador/a na Transformação da Sociedade” não só despertou o interesse dos graduandos em participar, como também contou com a presença de professores da UnB, USP, UFBA, DF, Faculdade Metodista, da própria UFES, da nossa instituição e entre outros a comporem as mesas com os sub-temas: “O sol nasce ao sul: um giro pelo mundo a partir da América Latina”, “Desafios do M.E.: transformação ou ruptura?”, “Financiamento da Educação e Reforma do Governo Lula”, “Novas Tecnologias: para reforçar uma visão individualista ou rumo a uma visão progressista?”, “Opressões: gênero e diversidade sexual”, “Etnia e Inclusão” e a tão aguardada última mesa com o tema do evento “O Papel do/a Educador/a na Transformação da Sociedade”.

Além de tais palestras, também houve Apresentações de Trabalhos orais e pôsteres; Grupos de Discussões sobre Reforma Universitária, Movimento Estudantil, Gênero e Diversidade Sexual, Etnia e Inclusão, Novas Tecnologias, e Estatuto ExNEPe; Noites Culturais com diversos ritmos como Congada, Samba Capixaba, Noite Cultural dos Estados, Cultural Póca – congada, forró e reggae – e Noite do Vinil.

Certamente, Vitória por ser uma cidade com belezas diversas e um potencial histórico-cultural fascinante, exibiu encantadores lugares a serem visitados. Destacaram-se a Praia da Costa e a de Itapoã; o Farol de Santa Luzia; o Convento da Penha; a lojinha e a fábrica da Garoto; o Museu Ferroviário de Vila Velha; a Pedra da Cebola; a Ilha de Caieiras; além de apreciar os belíssimos artesanatos nas Paneleiras em Goiabeiras, degustar a saborosa moqueca capixaba ao molho de camarão, acompanhada de uma bebida típica de maracujá e pitanga. Pensando nisto, a comissão organizadora do encontro especificou um Dia Livre no meio da semana para que pudéssemos “desvendar” a empolgante terra recém-chegada.

Este era um ENEPe estatutário. Conforme ocorre a cada dois anos, o Estatuto ExNEPe é discutido e são aprovadas as modificações. Além disso, o plano de lutas recebeu diversas propostas e seguem algumas das encaminhadas pela Plenária Final:

1. bandeiras de lutas – contra o SINAES/ENADE, por uma universidade pública, gratuita, de qualidade, autônoma, democrática, laica e a serviço do proletariado, e pela revogação do decreto 6096/07 (REUNI), defender a paridade nos conselhos universitários, campanha em prol do voto universal para reitores e diretores das faculdades e centros de ensino;
2. plano de ações – lutar pela derrubada no veto ao PNE (que investe 7% do PIB), construir a
Semana contra as repressões e criminalizações dos movimentos populares em Setembro, construir uma Calourada Unificada pela revogação do Decreto 6096/07;
3. Educação à distância – que façamos mobilizações nacionais contra as medidas governistas de implementação da EAD e de sucateamento da educação, garantir o envio da moção aos estudantes da UNESP na luta contra o projeto de criação do curso de Pedagogia modalidade à distância em parceria com a UNIVESP (Universidade Virtual do Estado de São Paulo), até 12/08/08 tendo em vista a manifestação na reitoria durante a votação do projeto;
4. reforma universitária – lutar contra as fundações privadas nas universidades públicas,unificar as lutas mensalmente e elaborar propostas para um calendário de lutas nacionais contra a reforma universitária, REUNI, os bacharelados interdisciplinares e o PROUNI, construir a semana de lutas contra a Reforma Universitária de Lula/PT, de 18 a 22 de agosto;
5. SINAES/ENADE – construir, a partir de materiais e palestras, o boicote ao ENADE;
6. conjuntura – apoio ao processo de ruptura dos sindicatos de base com a CUT;
7. etnia e inclusão – vigilância da lei 11.645/08 (referente à implementação de disciplinas sobre culturas negras e indígenas) e a lei de inclusão de portadores de necessidades especiais diretamente ligada à capacitação de profissionais (professores e funcionários) que quaisquer instituições públicas educacionais, bem como a cobrança de adaptação dos espaços físicos;
8. gênero e diversidade sexual – que as entidades de base realizem atividades de formação envolvendo o debate gênero e diversidade sexual, ampliando o debate entre os estudantes secundaristas;
9. moções – de repúdio e de apoio.

Tais atividades possibilitaram uma integração boa entre os participantes, discussões ricas e vastas acerca dos rumos da educação e as barreiras encontradas diante dos projetos governamentais de sucateamento e privatização do sistema de ensino, o qual lutamos para que seja público, gratuito e de qualidade! Nas esvaziadas plenárias, reuniam-se os protagonistas de reivindicações, sonhos, lutas, manifestações, batalhas, greves, ocupações de reitorias e vitórias por toda a extensão do território brasileiro: futuros – mas já agentes modificadores da fragilidade do sistema vigente – educadores deste país!

Entretanto, esta edição do encontro foi palco de momentos desagradáveis, como um planejamento quadruplicado da quantidade de inscritos e as conseqüências disto: refeições no Restaurante Universitário, bolsas, camisas, crachás e materiais didáticos que sobraram e seriam oferecidos aos inscritos dentro da quantia de R$110,00 paga por eles – considerada alta por grande parte dos estudantes e utilizada como justificativa central para a não ida de boa parcela dos interessados – ocasionando o menor número de inscrições dos últimos ENEPes; elevado custo com os seguranças; entre outros dispêndios como a limpeza do local e os banheiros químicos; resultando numa dívida de R$27.000,00 na conta pessoal de integrantes da executiva.

A fim de saná-la, os presentes propuseram arrecadações através da organização de atividades como oficina de forró, cabeleireiro, festas e até mesmo o prolongamento das Noites Culturais, ultrapassando às 3h da madrugada, para vender mais bebidas – o que levou certos companheiros ao consumo excessivo de álcool; obtendo uma quantia ínfima quando comparada ao real montante.

Sabe-se que organizar um evento é um desafio enorme, o qual só pode ser superado com a contribuição de todos. Sem dúvida, essa dificuldade apresentada foi um problema de todos os presentes, funcionando também como uma autocrítica que deveria ser debatida seriamente se não fosse a turbulência causada pelo fato da ExNEPe compor as mesas com palestrantes defensores de um conteúdo trágico para as universidades públicas – negando o posicionamento dos estudantes de Pedagogia CONTRÁRIOS À REFORMA UNIVERSITÁRIA do presidente Lula e que romperam com a burocrática e governista União Nacional de Estudantes (UNE) desde 2006 no XXVI ENEPe!

Outro fator aborrecedor foi constatado na burocratização dos debates, visto que somente dois minutos destinaram-se aos estudantes; portanto, quase 90% da plenária não pôde intervir. Os novos graduandos em Pedagogia devem se perguntar neste momento o porquê disto num evento que deveria prezar os bons, os coerentes e os justos caminhos educacionais para a nação. Então aqui respondemos, dizendo que de fato parte da própria executiva é composta por universitários atuantes na UNE e, em decorrência disto, propagandistas do governo! Tudo isto contribuiu perfeitamente para reduzir a participação dos estudantes, esvaziar os debates políticos e limitar a democracia.

Inesperadamente, visando objetivos maiores do que a preocupante desordem relatada, a Pedagogia mostrou-se capaz de se UNIR na construção de um belo, organizado e pacífico ATO pela Av. Fernando Ferrari, principal via de acesso ao Aeroporto e onde a UFES se localiza. Através de cartazes como “Concurso público urgente! Não à contratação! Sim à efetivação!”, “Educação não é mercadoria!”, “Por salários mais dignos” e uma faixa central com os dizeres: “a Revogação do Reuni e contra a criminalização dos movimentos estudantis e populares”, cerca de 150 universitários paralisaram algumas pistas do trânsito capixaba.

Os cânticos do Movimento Estudantil de Pedagogia (MEPe) chamaram a atenção de pedestres, passageiros e motoristas, a aplaudirem e buzinarem como forma de apoio às causas levantadas. O carro-de-som foi um importante instrumento para a agitação e condução dos manifestantes, os quais ao longo do ATO relataram as lutas em cada estado.

Ao retornar à UFES, confraternizamos com a seguinte canção: “Embarca morena embarca molha o pé, mas não molha a meia. Viemos de todo o Brasil fazer a luta na terra alheia!”, comprovando assim a força do M.E. corajoso e unificado, que quando bem organizado pode sim criar alternativas ao que muitos julgam ser “impossível”: lutar pela educação pública como um direito de todos os cidadãos, e democratizá-la, facilitando o acesso e a permanência estudantil no ambiente escolar/universitário, implementando toda a ASSISTÊNCIA necessária desde material didático, merenda escolar/bandejões, passe-livre, até acompanhamentos psicológico e familiar para otimizar o rendimento durante as aulas.

A UFRJ dispôs de um ônibus ida e volta à Vitória, comparecendo ao evento com uma delegação reduzida, porém atenta e disposta a somar esforços e a intervir quando necessário. Desta forma, contamos com a sua presença no XXIX ENEPe em Pernambuco e até lá!
Danielle Galante.(Rio, 31/08/08.)

Fausto Bendito Wolff*

Alma trocada entre os delírios de deuses de todos os males, viu e desejou a trança de luz entre os caminhos do medo. Que, para além de 'esperávamos seus textos', admirávamos sua postura reflexiva e corajosa. Não basta perceber as diferenças e se inquietar com elas, há de se perguntar sobre a troca a que estamos dispostos a negociar com os nossos indizíveis, com o mundo pré-metafórico latente entre o dentro de si e o atemporal de nossas dúvidas. Perceber que em simples palavras não há simples palavras sem que todas sejam simples. E que, portanto, não existe conciliação possível entre o que eu deveras quero e o que eu gostaria de querer, para me sentir melhor. Melhor sempre seria que o que existe fosse, como numa segunda vida inexistente, num simulacro eletrofinanceiro, substituída por algo m-mais simples, m-mais milagroso, onde as contradições eterizassem-se em números somente, bônus de culpa, bônus de arrependimento,... mas que a troca se desse apenas no nível das indulgências remoto-controladas por seus alarmes incontestes e não, nunca, pelas urgências, as urgências que esperem nesse mundo eu. Por que? Por que o medo melhor do que a simplicidade? Por que sempre o nada, nada de papel sem poesia, feito de embuste, regras e números valem mais dos que as horas em que estamos juntos? Não te lembras da infância, então experimentas. Por que não convocar a justiça coletiva como um pré-requisito para a felicidade? Que sórdida descrença se nos ilude pelo individual? Que objeto opaco o nosso antigo brilho abandonou. Alma Fausta e eterna, trocada pelo desejo coletivo e misturada a um corpo vermelho de lobo e pergaminho. Pinta teus novos descaminhos, com os restos que já não te obedecem e com as cores transparentes do futuro e integra, em mais um passo, essa eternidade passageira com a nossa despedida. Lamento meu caro Fausto a tua partida, mas ainda vejo deuses descalços pelos caminhos dos ventos, ainda corro até eles e me distancio das palavras, ainda serei feliz sem que tu sejas. Talvez não, meu otimismo, também vacila. Talvez, se das palavras quietas brotassem sonhos... e brotam como sabemos... talvez ainda sejam, nossos desconhecidos, felizes sem que sejamos. Podemos ir, confiantes no futuro, tu, mais apressadamente... posto que quase libertado das palavras, as horas já destinam seus ponteiros. Perceberemos?
*Professor Ricardo Kubrusly
IM-UFRJ

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Artigo sobre o assassinato do menino João Roberto Amorim*

"A tradição dos oprimidos nos ensina que o estado de exceção em que vivemos é na verdade regra geral. Precisamos construir um conceito de historia que corresponda a essa verdade Nesse momento percebemos que a nossa tarefa é criar um verdadeiro estado de emergência."
Walter Benjamin

A cena brutal, do pai desesperado na porta do hospital chorando a morte do seu filho assassinado pela polícia militar do Rio de Janeiro horrorizou a todos nós na última segunda feira dia 7 de julho. Conjuntamente com esse horror nos acompanhou uma ultrajante sensação de impotência. Essa sensação de impotência é causada pelo fato de que tragédias como essa se sucedem indiscriminadamente nas capitais de nosso país e com uma regularidade absurda no Rio de Janeiro. Tragicamente, percebemos que a constatação de Walter Benjamin feita sob a influência do significado do horror e das atrocidades que o princípio do nazismo anunciava se aplicam à nossa situação de vida. Estamos nos acostumando a lidar com a barbárie como algo natural. Nos dias precedentes, o Exército do Rio havia seqüestrado jovens para serem torturados e mortos; um policial havia assassinado um jovem na porta de uma boate em Ipanema; e a polícia havia matado mais uma criança em uma favela do Rio de Janeiro. Quatro assassinatos cometidos pelas forças de segurança do estado de maneira direta ou indireta. Cada um deles produz um choque momentâneo. E logo em seguida, ao ser substituído pelo próximo, é esquecido ou transformado em estatística. Deixam de representar fatos absurdos e se tornam, como na afirmação de Benjamin, “regra geral”. Se pararmos para refletir sobre o fenômeno, talvez possamos começar a compreender a sensação de impotência que assola a todos nós ao defrontarmo-nos com o último assassinato. A sensação de terror, revolta e indignação, à convicção de que fatos como esse são totalmente incompatíveis com uma vida minimamente digna, se fundem com a lembrança de todos os casos anteriores e a lembranças nauseantes de que depois deles nada aconteceu. Os culpados não foram punidos. A mídia fez um estardalhaço inicial igual a este e depois passou a tratar o assunto com insignificantes notas burocráticas e “imparciais”. As autoridades, cinicamente, trataram o caso como uma exceção resultante de um erro ou desvio de conduta individual. É como se, ao nos defrontarmos com o último absurdo, nos depararemos também como todos os anteriores. É como se a sensação de horror e indignação já viesse junto com a certeza de que o fato se repetirá. Que não trará nenhuma conseqüência ou solução. O que se depreende daí, pois, é a aterradora constatação: vivemos numa sociedade em que o fuzilamento de uma família pelas forças de segurança do Estado e o assassinato de um dos seus filhos é regra. Faz parte do jogo. Não determina nenhuma modificação nos fatores que determinaram o acontecimento. José Mario Beltrame, Sergio Cabral e Lula fingem que não têm nada a ver com isso. Que não têm nenhuma responsabilidade com a corrupção que impera no aparato de segurança do Estado, com a orientação de atuar em regiões urbanas como numa zona de guerra, de atacar civis como se fossem inimigos de guerra. Cada um de nós, quando nos conformamos com essa situação, quando reagimos com uma mistura de estupefação e impotência, somos coniventes com a atitude cínica das autoridades. Aceitamos como inevitável. Que tipo de dignidade pessoal podemos manter quando a nossa indignação já se transformou em passividade? Damos graças a Deus que não foi o nosso filho que a polícia assassinou (por enquanto), assistimos às notícias sobre esporte que se seguem; depois, à novela; e no outro dia voltamos ao nosso cotidiano como se nada houvesse acontecido. Evitamos até mesmo falar demais no assunto em casa, no trabalho ou em nossos espaços de convivência, porque já nos degradamos a ponto de aceitarmos que a única conseqüência de atentarmos para a tragédia de nosso semelhante é a reafirmação de nossa passividade? Somos então como o gado que segue em fila para o abatedouro, ao qual só resta o paliativo de que existe outro na fila na nossa frente e que outros já foram abatidos antes de nós.

Ao cinismo das autoridades se somam outros. Dos discursos especializados. Não é absurdo que a cada barbárie que se repete juristas e representantes do poder legislativo venham querer roubar nosso direito à indignação? Ao invés de se envergonhar perante a alienação dos poderes legislativo e judiciário em relação às necessidades elementares dos indivíduos, com ar de gravidade doutoral nos tratam como crianças ingênuas por acharmos que crimes bárbaros de execução cometidos por forças que supostamente existem para proteger os indivíduos são algo que não merece punição rigorosa. Usam, assim, todas suas terminologias para apresentar como inevitável que o Estado orientado por uma política neoliberal de restrição dos direitos mais elementares dos indivíduos atualmente despreze flagrantemente o mais elementar de todos os direitos: o direito à vida! A ausência total de políticas públicas de saúde, moradia, educação, a atuação de forças de segurança como verdadeiras tropas de extermínio e a incapacidade dos poderes judiciário e legislativo para punir responsáveis por crimes hediondos (tanto os cometidos por agentes das forças de segurança como os cometidos por criminosos comuns) faz parte de uma mesma lógica. Mas os representantes desses poderes preferem se esconder atrás de terminologias , ritos, saberes especializados, leis burocratizadas para prosseguirem com seu corporativismo que vitima milhares de brasileiros, sendo o último o menino João Roberto Amorim.

A impunidade que impera no nosso país transformou uma série de prerrogativas que supostamente existem para defender os direitos dos indivíduos em entraves que impedem que responsáveis por crimes hediondos sejam punidos. Os responsáveis respondem ao processo em liberdade, são beneficiados por habeas corpus intermináveis, o processo demora anos e anos a fio para transcorrer, e, quando termina, caso o culpado receba uma pena superior a 20 anos... É anulado! Além disso, caso o homicídio não seja considerado doloso e hediondo (no caso do menino João Roberto Amorim já não foi considerado já que quando o executaram os policiais “acharam que estavam atirando em bandidos e logo não tiveram a intenção de executá-lo”) os assassinos têm direito a cumprir um terço da pena em “liberdade”. Resultado? Na melhor das hipóteses, assassinos como os do menino João Roberto, do jovem Daniel Duque, dos jovens do morro da Providência, da menina Isabela Nardoni e tantos outros ficam cerca de 10 anos presos. Se o resultado é esse, a mensagem que o Estado passa atualmente no Brasil é estupefante. Assassinato não é coisa grave. É quase permitido. E, por fim, o discurso cínico especializado apresenta como inexorável, como lei da natureza, que as “leis do mercado” exijam a ausência total de políticas públicas de Estado, o que, como sabemos, aumenta significativamente a criminalidade. E, como conseqüência disso, autoridades podem orientar a polícia e o exército a exterminar a população civil. Não há punição para eles. Eles cinicamente dizem que a responsabilidade é exclusivamente do agente de segurança que cometeu o assassinato, que foi um acidente.

É essa situação absurda, esse estado de exceção, que atualmente as autoridades dos poderes judiciário, legislativo e executivo querem com seu suposto saber especializado nos obrigar a aceitar como regra geral Qual diferença entre isso e os momentos mais bárbaros da historia da humanidade, como por exemplo o nazismo? Querem nos reduzir à passividade, por serem eles os donos de conhecimentos que nós supostamente ignoramos. Novamente absurda lógica. Ao invés do conhecimento ser uma possibilidade de concretização dos anseios dos indivíduos (direitos sociais básicos, dentre eles o elementar direito à vida), se torna à suposta comprovação inexorável de que estes direitos não devem ser ansiados e que os indivíduos “não especializados” devem aceitar isso passivamente por não possuírem doutorado em segurança pública ou em economia, por não serem deputados nem juristas nem autoridades do poder executivo. Aqui cabe denunciar explicitamente duas posições que aparentemente se opõem, mas que na verdade são faces da mesma moeda e expressão da atitude de cercear o direito à indignação dos indivíduos brasileiros que trabalham honestamente e pagam seus impostos: a posição da direita, que busca entender casos de assassinato como pura conseqüência de atos isolados cometidos por indivíduos desequilibrados ou degenerados e que acha que a única coisa a ser feita é aumento da repressão; e a da pseudo-esquerda, atualmente elevada a governo federal, de que o fato de existirem determinantes sociais influenciando a escalada de crimes absurdos seja desculpa para a não punição efetiva daqueles que os realizam. Ausência de punição essa, aliás, determinada pela inércia e corporativismo dos poderes legislativo e judiciário, incapazes de construir um código penal que garanta o direito à vida e que julgue processos com o mínimo de agilidade sem se alienar em tramitações e ritos que só servem para distanciá-lo de sua função de origem, ou seja, expressar e realizar a necessidade de justiça da sociedade. O que os argumentos cínicos da direita e da pseudo-esquerda palaciana fingem ignorar é que toda ação realizada por indivíduos que vivem numa determinada sociedade é, ao mesmo tempo determinada pelas condições vigentes nessa sociedade, e uma resposta e intervenção sobre essa (para reproduzi-las ou rejeitá-las). Fica claro, assim, que o argumento da direita de que a responsabilidade por crimes é puramente individual e que a única solução para os mesmos é aumento indiscriminado da repressão (que aliás gera novos assassinatos como o do menino João Roberto) só serve para isentar as autoridades, e os rumos das políticas públicas de suas conseqüências e responsabilidades implicações. E que o argumento da pseudo-esquerda de que o clamor dos indivíduos honestos por justiça, por penas mais duras para assassinos, por reforma do código penal, por agilidade e eficiência do poder jurídico (com a necessária contratação de novos profissionais) é algo "conservador", nada mais é do que um véu de fumaça para encobrir que ela, a pseudo-esquerda, é promotora da desestruturação do Estado e de suas funções mais básicas levando o mesmo a um encastelamento burocrático que faz com que o mesmo não consiga hoje sequer garantir o direito mais básico dos indivíduos honestos, ou seja, o direito à vida.

Para concluir, é importante explicitar que nos atermos a todas essas condicionantes e a relação entre impunidade, ausência de políticas públicas, alienação do estado e cinismo das autoridades não pode nos conduzir de novo à passividade. Não podemos reproduzir o discurso “cínico especializado”, segundo o qual “a questão é muito complexa, então é melhor aceitarmos que não há nada a ser feito”. Pelo contrário. A motivação dessa reflexão é a solidariedade com a dor da família do menino João Roberto. Seu propósito é afirmar veementemente que tal tragédia não pode ser em vão. Que não pode ser tratada como simples fatalidade. Que precisa ter conseqüências sérias. E que ignorar tais conseqüências, que se manter passivo frente a elas, que dizer que não há nada a ser feito, é ser conivente com a escalada da sociedade brasileira rumo à barbárie. Tendo a clareza que a solução do problema exige medidas profundas e de longo prazo, temos que manter o sentido de EMERGÊNCIA e clamarmos por uma ampla mobilização de indivíduos e entidades da sociedade de civil a exigirem intransigente e imediatamente:

-Fim da política de segurança que orienta os aparatos de segurança a atuarem em regime de guerra. Responsabilização das autoridades do poder executivo pelas ações do aparato de segurança Mecanismos de controle social para que os cidadãos e a sociedade civil possam regular a ação da polícia e do Exército.
-Reforma penal e dos processos jurídicos capazes de responderem aos anseios de justiça da sociedade, impondo penas rigorosas e julgamentos ágeis e rápidos a crimes graves e hediondos;
-Políticas sociais efetivas de saúde; educação; moradia e distribuição de renda no Brasil.
*Carlos Alberto Leal
Estudante de Comunicação Social da UFRJ

domingo, 15 de junho de 2008

23 anos: contagem regressiva para as cinzas*

Embora não tenha sido tão inusitado e instigante como em 2007, o dia 30 de maio deste ano merece algumas reflexões que sirvam como lembrança. Ao passo que nosso planeta pôde completar mais um movimento de translação, incongruências legislativas e administrativas de Nova Iguaçu continuam impossibilitando que eu lecione no município1.

Em casa estou e vagamente escuto notícia referente a manifestantes. Dessa vez da UFRJ. Não era cinematográfica como a Elite que se destacou no cenário internacional e no submundo da pirataria, mas era de Choque a Tropa que seguia fidedignamente o roteiro que lhe foi imbuído: bombas e coerção para cima dos professores, estudantes, funcionários e pacientes que ocupavam parte da Linha Vermelha—uma das principais vias de acesso do Rio de Janeiro— porque a Saúde e a Educação Públicas são diariamente sucateadas, fornecendo brechas para a inserção dos interesses privados. Esses manifestantes devem ser mesmo uns baderneiros, já que o quadro conturbado apenas traz a precarização e o cancelamento de atendimentos à população e prejuízos para a formação de centenas de médicos, enfermeiros, fisioterapeutas etc. como conseqüências.

Num mundo polivalente e precarizado, o orkut tem permitido trocas de centenas de céleres parabéns, já que pouco nos sobra tempo—e dinheiro—para encontros físicos ou até mesmo bons diálogos ao telefone. É perceptível a justiça da correlação de forças. De um lado, escrevo essas humildes palavras, que chegarão a alguns de meus amigos, familiares e conhecidos, com o suporte de ferramentas virtuais. O texto que subscrevo? Muitos nem abrirão a mensagem; outros muitos considerarão muito longo; ainda outros talvez não possuam o necessário e escasso tempo. Dezenas, centenas lerão? Já terei de ficar satisfeito. Entretanto, do outro lado, milhares, milhões de aparelhos garantem recordes de audiências e milhões, bilhões de arrecadação advindas de propagandas. Lares, bares, restaurantes Brasil afora acompanham mais um final de novela, tendo ainda mais um dia para rever e um intervalo sadio com Gugu, Faustão ou Pânico antes de iniciar a próxima empreitada. De Duas faces à Predileta, o lixo da ditadura ideológica global é engolido pela população.

O supersensacionalismo da mídia, que, burguesa, catalisa a revolta das pessoas para o ódio e soluções paliativas e individualistas. De Isabela a Gabriela, passando por João Hélio, faço uma pausa para lembrar que há outros tantos milhões de brasileirinhos sendo explorados sexualmente ou com altíssimas jornadas de trabalho em lavouras e canaviais ou ainda vítimas do narcotráfico e da polícia repressora e criminalizadora da pobreza—esses faces da mesma moeda capitalista. Pena de morte? Prisão perpétua? Justiça ou vingança? Enquanto os dominantes camuflam que as necessidades são mais amplas do que esses meros apontamentos, aguardemos novas barbaridades para inquietar, porém naturalizar o sistema vigente.

Prestes a interromper essas palavras, lembrei-me de histórias como a de David e Golias e decidi: vale a pena terminar o texto! Alceu Valença, Dominguinhos e dezenas de atores teatralizavam a cidade pernambucana na Fundição Progresso, demonstrando as potencialidades criadoras e criativas dos seres humanos, seja na música ou na culinária. Condições objetivas são necessárias para que nosso desenvolvimento se concretize. E o que vemos no Nordeste pauperizado de nosso país é Fome Zero e bolsas assistencialistas para os trabalhadores; e milhões de investimentos para a Transposição do Rio São Francisco para o beneficiamento empresarial.

Retornando para casa, a contradição se expressava mais fortemente. Na Av. Presidente Vargas, agências bancárias se multiplicam, cuja lucratividade atinge cada vez mais altos índices. Na mesma proporção, aumenta a quantidade de seres humanos atingidos diretamente pela barbárie. Nas portas das agências, deitados sobre e sob jornais, panos e algumas possíveis doações de roupas de cama usadas, condições subumanas subsidiam como reflexão e esperança exclusivamente dúvidas acerca da garantia de um prato de comida ao longo do dia para essas pessoas.

Envoltos numa sociedade onde tudo se mercadoriza e os seres humanos se desumanizam, a produção dos meus sonhos não migrou ao mercado. A égide neoliberal propaga o individualismo e escamoteia as verdadeiras relações entre exploradores e explorados. Apesar do simpático samba da Mocidade clamar que sonhar não custa nada, tentáculos difundem-se para ocupar nossas mentes e naturalizarmos a fome, a miséria, a violência e todas as mazelas sociais com um trivial sempre foi assim.

Subordinar-se e ajoelhar-se para rezar a cartilha vigente? Digo um enfático Não! Pois tenho plena certeza na organização coletiva que transforme nossos sonhos em subversão da atual realidade que nos cerca. Os acomodados e os adversários vão dizer que, por sermos jovens, somos ingênuos e iludidos. Da volta do trem no ano passado até hoje, aumento a certeza de defender um projeto histórico de sociedade antagônico ao que vigora. Para os que discordam e dizem simplesmente “quero ver daqui a 10, 20 anos”, será preciso continuar a contagem regressiva. Não se cansem, pois a retirada das lutas necessariamente um dia chegará, mas apenas junto às minhas cinzas, que deixarão como herança a chama acesa dos sonhos, que hão de concretizar a transformação.

1Parágrafo referente ao texto “22 anos em 37 minutos. Eu vou andar de trem... Você também...¿”. Disponível em http://www.efdeportes.com/efd110/ato-contra-o-pan-rio-07.htm
*Gabriel Rodrigues Daumas Marques

sábado, 14 de junho de 2008

12 de junho na UFRJ: sobre namorados e lutas*

Poderia ser um simples 12 de junho. Um passeio pelo Centro de Ciências da Saúde da UFRJ para procurar um presente para comemorar a data seria uma atividade corriqueira; à medida que são diminuídas as verbas para a Saúde e a Educação Públicas, nossa Universidade, que deveria produzir conhecimento para o conjunto da sociedade, é mercadorizada. Ganha fisionomia de shopping center, com praça de alimentação em vez de Bandejão; Feiras de quitutes, bijuterias e roupas substituindo espaços de convivência entre a comunidade acadêmica; bancas de planos de saúde, que ampliam sua lucratividade.



Retornando à maquina do tempo, 24 de abril de 2007: Plano de Desenvolvimento da Educação. DECRETADO! Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais: DECRETADO! Ampliação de vagas, democratização, interdisciplinaridade, combate à evasão são palavras de ordem governistas para tentar legitimar seus projetos para a Educação, cujo método é o DECRETO! Dobrar as vagas e dobrar a taxa de aprovação. Em troca, até 20% de aumento das verbas, dependendo da capacidade orçamentária!



Nossas Magníficas Reitorias? Ajoelham-se perante a lógica mercadológica e seguem a cartilha neoliberal. Subserviência em meio a piadinhas e sorrisos entre o Reitor da UFRJ, o presidente da República e o Ministro da Educação sacramentam a assinatura referente ao DECRETO! Como se fosse natural aprovar a adesão clamando nove vezes para os conselheiros levantarem os braços sem saber o que estavam votando, em um espaço decisório arcaico que não reflete a realidade da Universidade. No dia 18 de outubro de 2007, pudemos observar a luta entre interesses antagônicos. Estudantes, professores e funcionários em defesa da Educação Pública X Reitoria, seus seguranças e asseclas da União Nacional dos Estudantes e da Central Única dos Trabalhadores.



Através de diretrizes para o Plano Diretor e chantagens e pressão em reunião às portas fechadas com Direções de algumas Unidades, a Reitoria tenta materializar sua assinatura em Brasília. Para atender aos critérios e metas, cursos novos como Relações Internacionais, Saúde Coletiva, Terapia Ocupacional, Bacharelado em Ciências Matemáticas e da Terra, Design aparecem no cenário acadêmico.



Mudanças dessa magnitude requerem amplas discussões com o conjunto da Universidade e também da sociedade. Por conta do entendimento derrotista nos debates sobre os futuros da Educação na UFRJ, a Reitoria ignora esse apelo, enquanto o Movimento Estudantil promove um Plebiscito com 95,38% de contrariedade ao REUNI com quase 5000 participantes, a Congregação da Faculdade Nacional de Direito aprova defesa de Plebiscito das Unidades para decisão acerca da transferência para a Cidade Universitária, a Faculdade de Educação promove reuniões públicas que se colocam contrariamente ao método e ao conteúdo das reformulações, o Colégio de Aplicação reúne seus professores e debate com qualidade sobre concepção educacional.



Voltando ao 12 de junho, identificamos os limites do Conselho Universitário da UFRJ para ampliar a participação de discussão e de decisão para o conjunto da comunidade acadêmica. A vivência institucional estará comprometida enquanto o conservadorismo mantiver suas posições para defender o status quo. É impossível que decidamos quaisquer questões referentes à criação de novos cursos, diretrizes para o Plano Diretor ou qualquer outro ponto relacionado ao DECRETO 6096-07 sem que se pense uma nova metodologia para as decisões na UFRJ, que impliquem cronograma de debates, Plebiscitos, Congresso Interno deliberativo e universal etc.



Quase 100 estudantes participaram da manifestação e inviabilizaram mais uma Sessão do CONSUNI. Se a arbitrariedade do Governo Lula, da Reitoria e dos setores governistas como a UNE, a CUT e o Centro Acadêmico Carlos Chagas—que, ao se pronunciar, comparou o DCE Mario Prata à Tropa de Choque da Polícia que lançara bombas sobre os manifestantes em defesa dos Hospitais Universitários, manchando a história do CACC, que já esteve na vanguarda das lutas em diversos momentos—continuar, a luta adversa precisa se fortalecer. Não devem ser feitas reuniões de cúpula da Reitoria com as entidades como o DCE, a AdUFRJ ou o SINTUFRJ, mas amplos debates com a presença desses setores em cada Unidade, chamando seus atores para protagonizar a mudança.



A UFRJ deve retomar o espírito combativo do maio de 1968. Ousadia, coragem, participação e luta precisam diariamente conquistar corações e mentes para operarmos a contrariedade aos rumos bancomundialistas da Educação e apresentarmos a nossa proposta, o nosso projeto, construído coletivamente para dialogar com e superar a realidade cruel da sociedade desigual em que vivemos.



Em vez de presentes para namorados e namoradas, congratulações aos lutadores que não se rendem ao pragmatismo e nos fazem recordar as mensagens de que podemos ser realistas, exigindo o impossível.


*Gabriel Rodrigues Daumas Marques

domingo, 13 de abril de 2008

As transparências do cinza*

Uma administração transparente é a que se deixa ver, aos seus mecanismos, à sua estrutura. Fiscalizá-la, ao menos na teoria, torna-se possível. Não que não haja, nuanças e truques que entre uma brecha e outra da clareza anunciada, ainda permitam o disfarce opaco das falcatruas e das atitudes desmedidas por dentro da roupa transparente anunciada. Mas de qualquer maneira, é o melhor que se pode desejar de uma administração que se quer verdadeiramente fiscalizada por seus administrados.
O mesmo não é válido para ações. Estas, as queremos sólidas brilhantes e inquestionavelmente visíveis. O que ganham as administrações ao serem exercidas em conjunto ao serem co-administradas, perdem as ações ao se verem co-agidas. Estas tornam-se difusas, perdem brilho e efetividade, se dispersando invisíveis por entre os discursos vazios.
Vivemos um Brasil reverso nas atitudes e nas gestões. Nossas administrações se solidificam opacas e escondem a vaidade e a ganância de nossos governantes que por trás da intransparência dos seus cinzas pensam sempre e tão somente em se dar bem a qualquer custo. Estes enriquecem e se petrificam. Caminham para o cemitério em suas limusines. Perderam qualquer futuro em si e vivem apenas da ilusão presente em seus poderes. Vivemos um Brasil reverso nas atitudes e nas gestões. Coagido por lógicas simplistas e resignadas, caminhamos o invisível caminho do suicídio ideológico. Aqui, hoje, age-se como não se fala, vestimos sempre a fantasia do que não se é ou se quer. Vestimo-nos visíveis por dentro, onde as cores vermelhas de um futuro ainda fulgem, mas agimos na transparência contrária aos nossos sonhos, ceifando destinos e perpetuando as misérias de que somos, historicamente, feitos.
Endireitar é a palavra governista, em todos os níveis, dos palácios às universidades e além. Endireitar a qualquer custo e sem deixar vestígios, pois sabemos e todos sabem que os caminhos possíveis para a dignidade e a felicidade a que todos têm direito é à esquerda, e à esquerda sempre. Endireitar é a palavra de nossos dirigentes, único verbo que conjugam. O verbo Eu e seus caminhos sinistros. Endireitar sem deixar vestígios, com ações transparentes e gestões opacas.
Nessa direção caminham nossos municípios, estados e federação. Nessa direção caminham nossas instituições. À direita sempre em cada ação perversamente planejada, com seus discursos falsamente socialista e seus atores cadáveres de um outro tempo, o da esperança, que já não mais encarnam. A UFRJ, nesse contexto, segue, patética universidade, os mesmos passos sem reflexões. Seus diretores há muito abandonaram uma ideologia transformadora e aquietaram-se na lógica do mercado e lenta e transparentemente transformam nossas aventuras investigativas em joint ventures subordinadas ao capital internacional e seus modismos. Não há delicadezas nessa marcha suicida. Os que se lembram de suas esperanças são convocados a pintarem o cenário colorido de justiça onde escamoteados operam-se as truculências da direita imperatriz. Às vezes se iludem e pensam que suas cores pintam um caminho de possibilidades. Às vezes se iludem, outras vezes não. Mesmo nos nossos sindicatos, historicamente mais combatentes, já vemos as limusines à porta e os sorrisos de pedra.
Mais um semestre se inicia em nossa UFRJ. Mais uma aula magna. Desta vez não teremos um reitor abobalhado com seus planos de ceifar pensamentos e sonhos. Já fomos ceifados durante o ano com a implementação de suas idéias perversas. Agora, depois de bater nos estudantes e nos que com eles protestaram pelos caminhos assumidos pelos ex-socialistas endireitados de hoje, mais um representante desse governo de traições permanentes nos dirigirá palavras. Vamos escutá-las. Quem sabe, nos iludir mais uma vez com suas roupas coloridas, quem sabe nos desarmar e felizes momentaneamente, embarcar nas limusines da implementação do REUNI em nosso campus. Afinal, o cemitério é logo ali.
*Professor Ricardo Kubrusly
Texto elaborado por conta da Aula Magna de 2008 na UFRJ, cujo convidado da Reitoria foi o dirigente do MST João Pedro Stédile

domingo, 9 de março de 2008

Contrapondo a meritocracia do Vestibular e a opressão do Trote

Gabriel Rodrigues Daumas Marques*

Nada é impossível de mudar
Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo
E examinai, sobretudo, o que parece habitual
Suplicamos expressamente:
Não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
Pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada,
De arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada,
Nada deve parecer natural
Nada deve parecer impossível de mudar
Bertolt Brecht

Iniciamos mais um semestre letivo e dois temas muito recorrentes para os recém-ingressos no Ensino Superior merecem uma abordagem crítica para a contraposição à ordem vigente que também se reflete no sistema educacional: o vestibular e o trote.
Enquanto o Ministério da Educação segue na implementação efetiva da Reforma Universitária, sob as orientações e diretrizes dos organismos internacionais, o Governo Lula/PT divulga maciçamente seus ‘expressivos’ números de democratização da educação e nossa subserviente Reitoria ratifica a lógica meritocrática que pauta o acesso e a permanência na instituição ao utilizar como divulgação de notícias do vestibular a foto de dois calouros felizes com os dizeres pintados em seus rostos.
Por que simbolizar o sorriso de 6.825 novos estudantes da UFRJ e não a frustração dos demais 40.178 candidatos? Ou ainda as dezenas de milhares de jovens que, dentro do atual modelo, jamais conseguirão pagar a taxa de R$95,00 de inscrição ou nem recebem as informações sobre a possibilidade de estudar em uma Universidade?1
Para uma parcela desse enorme quantitativo, o Governo Federal, demagogicamente, diz caminhar para a ‘democratização’: cria vagas públicas em instituições privadas através do Programa Universidade Para Todos, alegando ser a única chance para diversos jovens ingressarem no Ensino Superior. Além das duvidosas qualidades dos cursos, distanciados da excelência que muitas públicas ainda conseguem manter graças à sua aguerrida comunidade acadêmica, o empresariado educacional ‘pilantrópico’ agradece ao reabastecer sua lucratividade com a isenção de impostos e obter apoio ideológico na novela global de horário nobre. Na continuidade dos interesses para a manutenção do status quo, a criação de novas vagas se fortifica sob a forma da Educação à Distância. Em breve não será surpresa campanha da Globo para os ‘Amigos da Universidade’ em vez de concursos públicos para docentes e técnico-administrativos.
Retomando o tema ‘vestibular’, o discurso conservador defende que as oportunidades são iguais para todos, mas omite as imensas diferenças nas condições históricas, sociais e culturais existentes entre um que precisava de três conduções para estudar(?) num Colégio Estadual da Baixada Fluminense (cujo déficit de professores da Secretaria Estadual ultrapassa os 20.000)2 e outro que tinha transporte para levar e trazer de colégio particular e dinheiro para comprar livros. Como partem da premissa competitivista-individualista aflorada pela ideologia neoliberal, cabe-nos traçar a contraposição e demonstrar caminhos a partir do entendimento do ser humano enquanto sujeito histórico.
E os 6.825 calouros com isso?
Nesse momento em que recebemos novos estudantes, é imprescindível uma recepção para efetivar a integração e transformá-los em membros da comunidade acadêmica, comprometidos com a construção do conhecimento para o conjunto da sociedade. Porém, em diversos cursos da UFRJ, o primeiro contato da calourada nos fornece algumas reflexões.
A organização das atividades tem escapado do conjunto dos estudantes dos cursos, sendo apropriada por limitadas comissões de apenas um período, cujo maior enfoque é dado a brincadeiras lúdico-recreativas e ao tradicional ‘pedágio’, onde a calourada é pintada de tinta para pedir dinheiro nas ruas de diversos bairros. Além disso, o objetivo da arrecadação é a realização de um grande evento, popularmente conhecido como ‘Choppada’, que tem sido terceirizado a empresas especializadas, enquanto parte do lucro é dividida entre os integrantes das comissões.
A mídia apenas divulga as situações calamitosas, como mortes e atropelamentos, mas é nosso papel lembrar que, apesar da aparência de brincadeira, o trote oferece, através de vexame, risos às custas da desgraça alheia e em diversos casos se aproxima de práticas fascistas, ao passo que alguns calouros são intimados de variadas maneiras a acatar as ordens de seu ‘proprietário’ veterano e tantos outros calouros aguardam a hora de ser veteranos para efetuarem a ‘vingança’.
Creio ser tarefa dos movimentos organizados da comunidade acadêmica—AdUFRJ, SINTUFRJ, APG, DCE e CAs—iniciar de maneira sólida a discussão sobre uma nova concepção para a recepção de calouros, realizando palestras, debates, filmes, passeios pela instituição, aproximando pais e ex-alunos, dentre outras atividades criativas e criadoras para a manutenção da luta em defesa da educação pública e ampliando os horizontes para uma rica discussão sobre como funciona a sociedade. Tal qual a questão da segurança, defendo que a UFRJ não pode se eximir de sua responsabilidade social apenas transferindo de local as conseqüências dos problemas provocados pelo consumo de álcool. Defendo que as festividades de integração possam ser realizadas nos espaços da Universidade, com abertura para a participação de diversos estudantes na organização através das entidades representativas, mantendo o famoso ‘pedágio’ para dialogar com a população sobre os problemas enfrentados por conta da constante privatização e utilizar a arrecadação para a confecção de jornais, adesivos, materiais de estudos para próprio corpo discente.
Apesar da aparência da igualdade e de ingênuas brincadeiras, as lógicas meritocrática do vestibular e opressora do trote são reflexos da base econômica de dominação de poucos sobre muitos, cabendo aos setores combativos a construção e o fortalecimento da contra-hegemonia que supere as atuais condições.

1Dados disponíveis em http://www.ufrj.br/
2Estimativas do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação

*Professor substituto de Educação Física do CAp-UFRJ
Estudante de Pedagogia e representante discente no CONSUNI